Dia 5 de setembro vivi, pela segunda vez, o desafio da Ultra 80K de Sana. A primeira foi em 2024, quando completei a prova em aproximadamente 11h36min. Dessa vez, eu tinha um planejamento: queria fazer em 10h30min.
E, no começo, tudo parecia perfeito.
Largada às 4h da manhã, clima fresquinho, tudo
caminhando exatamente como eu havia planejado. Diferente de 2024, quando
enfrentamos um calor insuportável, dessa vez parecia que o universo estava
conspirando a nosso favor.
Até que veio a chuva…
E não foi uma chuva qualquer. Foi um temporal
daqueles que fazem a gente pensar que o mundo vai desabar. Raios, trovões,
muita água… Eu corria e pensava: “Meu Deus, se esse raio cair em mim?”
Ficamos completamente molhados. Depois, como se a
prova quisesse testar cada pedacinho da nossa resistência, o temporal passou e
veio aquele sol de rachar.
Muito tempo correndo a céu aberto, calor intenso,
corpo molhado…até que encontrei um chuveirão.
E pensei: “É agora!”
Entrei.
Talvez esse tenha sido o meu grande erro.
Depois daquela chuveirada, meu corpo começou a
apresentar algo que eu nunca havia vivido em uma prova: cãibras. Muitas cãibras.
Do aproximadamente quilômetro 45 até o 80, foi uma
verdadeira batalha.
Toda vez que eu tentava acelerar, a cãibra
aparecia. Nas descidas, eu queria aproveitar para ganhar tempo, mas não
conseguia. Precisava parar. A dor vinha forte e me obrigava a respeitar os
limites do meu corpo.
E quem já sentiu uma cãibra sabe exatamente do que
estou falando.
Eu corro desde 2020 e, acreditem: nunca tinha
sentido cãibra durante uma prova.
Acredito que o calor, a hidratação e,
principalmente, a dificuldade de me alimentar contribuíram muito para aquilo.
Chegou um momento em que eu simplesmente não
conseguia comer.
Tudo o que eu tentava colocar para dentro não descia.
Eu precisava jogar fora. Só conseguia beber água e Coca-Cola. Tomei apenas dois
Carbogel durante todo aquele percurso.
E aí o corpo começa a cobrar.
A mente começa a bugar.
Você fica fraca, cansada, com a sensação de que
não vai conseguir chegar.
Teve um momento em que encontrei o Moisés e
começamos a conversar enquanto caminhávamos. Eu falei que estava pensando em
desistir quando chegasse por volta do km 63, porque eu simplesmente não estava
aguentando mais.
Mas alguma coisa dentro de mim dizia:
“Continua.”
E Deus foi colocando pessoas no meu caminho.
Em um determinado trecho, eu ia pegar o caminho
errado e dois rapazes gritaram:
“Ei! Não é aí! Vem por aqui!”
E lá fui eu novamente para o caminho certo.
E assim foi durante toda a prova.
Deus colocando pessoas para me ajudar nos momentos
em que eu mais precisava.
E não bastasse tudo isso, ainda tivemos vacas,
bois, cachorros querendo nos morder, pau na mão para espantar cachorro, trilhas completamente escorregadias
por causa da chuva…
Você pisava e escorregava.
Tentava descer e escorregava.
Tentava subir e escorregava.
E aquela estratégia perfeita de fazer os 80 km em
10h30min foi, aos poucos, indo por água abaixo.
Mas sabe o que não foi por água abaixo?
A minha vontade de chegar.
Eu não consegui cumprir o tempo que havia
planejado. Mas consegui algo muito maior:
eu terminei.
Terminei uma prova que, em vários momentos, meu
corpo dizia que não conseguiria terminar.
Terminei mesmo com a mente querendo desistir.
Terminei mesmo com as pernas travando.
Terminei mesmo sem conseguir me alimentar direito.
Terminei porque, quando eu achei que não tinha
mais forças, Deus me sustentou.
E eu tenho certeza, absoluta, de que sem Ele eu
não teria conseguido.
Essa prova me ensinou mais uma vez que, muitas
vezes, nós não conhecemos a nossa própria força.
A nossa mente diz: “Chega.”
O nosso corpo diz: “Para.”
A dor diz: “Você não vai conseguir.”
Mas Deus diz:
“Continua. Eu estou com você.”
E eu continuei.
Porque talvez a grande vitória não estivesse em
fazer 80 km em 10h30min.
Talvez a grande vitória fosse descobrir que, mesmo
quando tudo sai do planejado, eu ainda sou capaz de chegar até o fim.
Hoje eu olho para trás e só consigo agradecer.
Agradecer a Deus por ter segurado a minha mão em
cada quilômetro.
Agradecer a cada pessoa que cruzou meu caminho e
me ajudou, mesmo sem saber o tamanho da diferença que estava fazendo naquele
momento.
Agradecer ao Moisés pela companhia e pelas
palavras.
E agradecer de coração à Verinha e ao Aprígio, que
fazem uma prova simplesmente sensacional, sempre pensando nos atletas,
cuidando, acolhendo e entregando tudo com tanto carinho.
E o troféu?
Sem comentários!
Lindo demais! Um troféu que representa exatamente
aquilo que um atleta vive para conquistar: esforço, sofrimento, dedicação, superação
e amor pelo que faz.
Foi uma prova dura.
Foi insana.
Foi surreal.
Foi muito diferente de tudo que eu já vivi.
Mas foi, acima de tudo, uma prova que me mostrou
mais uma vez:
EU SOU MUITO MAIS FORTE DO QUE IMAGINO.
E quando a minha mente quiser bugar, quando o meu
corpo quiser parar e quando a dor disser que eu não consigo…
Eu vou lembrar dos 80 km de Sana.
Porque Deus já me mostrou que eu posso suportar
muito mais do que eu imaginava.
Nunca foi e nunca será só correr.
80K DE SANA: EU SOBREVIVI, EU APRENDI, EU SUPEREI.

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Jorge Cerqueira
Ultramaratonista